Serva de Deus Irmã Benigna Victima de Jesus

As terras mineiras testemunharam muitos fatos da singela manifestação de Deus na história do povo brasileiro. Em Diamantina-MG, muitos tesouros foram extraídos de sua cultura, de suas rochas e Deus escolheu este solo abençoado para garimpar a docilidade da santidade.

Joaquim Antônio dos Santos e Eulália dos Santos formaram uma família modesta, onde o trabalho, a dignidade e a religiosidade eram alicerces na educação de seus nove filhos. A alegria da convivência, o acolhimento e as canções seresteiras compunham a essência desse lar. 

No ano de 1907, em pleno inverno, nasceu Maria da Conceição dos Santos, no dia 16 de agosto. Como pedra preciosa, seu coração se preparava para irradiar a luz do Senhor. 

Dois anos depois, aos quarenta e quatro anos, Eulália veio a falecer deixando o legado de que Nossa Senhora seria a grande protetora e mãe de seus filhos. Joaquim permaneceu viúvo e criou os filhos num ambiente de fé, simplicidade e alegria. Na profissão de pedreiro era conhecido como homem digno e trabalhador, assim obteve o sustento de seus filhos e testemunhou para os mesmos a essência dos valores cristãos. 

A escuta da Palavra de Deus era como seiva que alimentava e iluminava os passos da família Santos. Maria da Conceição tornou-se uma jovem comunicativa, aprendeu a tocar piano, violão, acordeom e encantava a todos com sua alegria. Desde a mais tenra idade participava ativamente na comunidade e desfrutou dos ensinamentos da catequese, coroações, festas religiosas, procissões, terços e encontros do movimento das “Filhas de Maria”. 

Em 1920 concluiu o curso primário. Seu jovem coração era dedicado e generoso. Encontrou espaço para evangelizar dando aulas de violão e catequese. Seu olhar se compadecia com o sofrimento alheio e os gestos de solidariedade se tornavam cada vez mais necessários. Deus encontrou um terreno fértil para depositar a semente da vocação. 

Envolvida pela ardente aspiração de servir a Deus, com simplicidade, procurou em sua cidade uma Congregação e manifestou sua sincera vontade de dizer sim ao Senhor. Por ser de origem negra, o convento não lhe abriu as portas. Seu coração confiante no tempo de Deus, não desistiu do sonho e dedicava-se ainda mais nas atividades da Igreja e no trabalho, como costureira, auxiliava nas despesas de sua humilde família. 

Os anos se passaram, mas o chamado de Deus era vital em seu coração. Dom Carlos Carmelo Vasconcelos Motta (Cardeal), amigo da família e, na época, Bispo Auxiliar de Diamantina, tomou ciência do ocorrido e apresentou-a à Congregação das Irmãs Auxiliares de Nossa Senhora da Piedade. Fundada por Mons. Domingos Evangelista Pinheiro em 1892, aos pés da Serra da Piedade, em Caeté-MG. Esta possuía como primórdios de seu carisma fundacional a acolhida e promoção dos negros em nossa sociedade.  

Recebida com fraterna acolhida, Maria da Conceição dos Santos iniciou sua caminhada na Vida Religiosa em 1934, aos 27 anos de idade. Madre Carmelita do Coração de Jesus, uma das co-fundadoras, mantinha a fidelidade ao carisma e a recebeu com igualdade e respeito. 

No ano seguinte, ao comemorar a festa de Nossa Senhora de Lourdes, aos 11 de fevereiro de 1935, recebeu o hábito religioso e iniciou a caminhada do Noviciado. Os tempos eram difíceis e as condições eram precárias para todas as Irmãs. Assim, o duro trabalho e a abnegação eram virtudes necessárias para o coração das Irmãs Auxiliares. A Serva de Deus não media esforços e sabia que os desafios eram parte do minucioso processo de lapidação que Deus fornecia aos corações. Com sua alegria contagiante e com seu violão animava os recreios e enriquecia os momentos litúrgicos.

Em 19 de março de 1936, festa de São José, professou os Primeiros Votos Religiosos de Pobreza, Castidade e Obediência. Sua missa de profissão fora presidida por Dom Carlos Vasconcelos Motta e, neste dia, Maria da Conceição dos Santos recebeu solenemente o nome de Irmã Benigna Victima de Jesus. 

Enviada para Itaúna-MG, iniciou seu apostolado junto aos doentes e necessitados da “Santa Casa de Misericórdia”. Aprendeu o ofício de técnica de enfermagem e não deixou de levar aos doentes palavras de conforto e canções de alegria. Gradativamente reconheciam suas virtudes e sua fé. Inúmeras pessoas a procuravam pela sua caridade, suas palavras de conforto, buscavam o alívio das necessidades materiais, dores físicas e espirituais. 

Em janeiro de 1941, Irmã Benigna Victima de Jesus fez os seus Votos Perpétuos. Inundada pelo Espírito de Deus dedicou-se ainda mais ao serviço dos pobres e necessitados.  Seu testemunho Religioso, sua doação apostólica coerente e sua crescente caridade tornaram-na um exemplo de consagrada e em 1943, fora escolhida para ser a superiora da Comunidade de Itaúna-MG. Trabalhou e construiu uma maternidade, cujo objetivo era auxiliar as mães carentes. Orientava sobre os cuidados físicos e os valores da fé indispensáveis para a construção da dignidade humana. A vida fraterna era enriquecida com os conselhos e ensinamentos sobre a ética profissional. A partilha de dons acontecia nas orações, cantos, dores e alegrias que a comunidade vivenciava. 

Irmã Benigna sabia que a pedagogia de Deus utiliza o caminho da cruz e aos poucos percebeu o peso das inúmeras provações.  Em 1946 a falta de estudos e a discriminação racial se fizeram presentes de forma imperativa, no entanto, o apego às orações e confiança na infinita misericórdia de Deus foram balsamos que fortificavam sua fé. 

Em 1947, sofreu uma terrível calúnia, pautada em falsas acusações. Deixou de ser superiora e foi transferida, por decisão do Governo Geral, para a Casa Mãe. Impedida de receber visitas e de exercer seu trabalho pastoral Irmã Benigna exercitava a virtude da resignação e se entregava nas mãos de Deus. Constantemente afirmava que Nossa Senhora era sua advogada e que tudo se esclareceria. De fato, seu caso fora julgado e esclarecido publicamente. 

Nesse tempo, a Superiora da Casa Mãe era uma Irmã muito generosa, de atitudes serenas e olhar misericordioso. Ciente da preciosa vocação da Irmã Benigna e das inúmeras necessidades das pessoas que a procuravam, deixava silenciosamente que ela acolhesse os visitantes e muitas vezes, quando não era possível autorizá-los os orientavam a declarar um grau de parentesco. Assim, o povo descobriu a casa que abrigava a Irmã que levava alívio, esperança, bondade e alegria aos corações. Sutilmente emanava de suas atitudes de humildade e profunda fé a fama de santidade.

Em junho de 1950, foi transferida para o Asilo e Hospital de Lambari-MG. Na enfermaria aliviava as dores com as prescrições deixadas pelos médicos e aliviava as dores da alma com seu jeito alegre de levar a Palavra de Deus. 

No Colégio Nossa Senhora de Lourdes, situado na Cidade de Lavras-MG, morou em 1955. Atendia a todos que lhe procuravam seja pessoalmente ou por telefone. A grande procura dos fiéis em busca de orações e graças especiais rompiam a estrutura da comunidade e as transferências foram inúmeras. Nos hospitais, escolas e asilos a presença da Serva de Deus não passou despercebida. 

Durante o plantio, era comum que os agricultores levassem a Irmã Benigna nas lavouras para fazer orações e abençoar a colheita. Certa vez, um fazendeiro chegou à casa das Irmãs com uma vasilha cheia de mandruvás mortos, para expressar sua gratidão diante da oração da Serva de Deus que salvou os frutos de seu trabalho.

Convidada para compor a comunidade do Lar Augusto e Silva, situada em Lavras –MG, em 1966, Irmã Benigna aguçou seu ardor missionário. Com alegria e prontidão sempre repetia ao ser solicitada: “Jesus tem pressa!” e se deslocava para servir os fiéis. Andava de casa em casa, acolhia ricos e pobres sem distinção e promovia aqueles que se encontravam desesperançados. Cresciam os depoimentos de curas e graças alcançadas pela intercessão das orações da Serva de Deus. Conquistou a todos com sua simpatia e disponibilidade e recebeu o título de cidadã honorária Lavrense.

Nos períodos em que permanecera em Belo Horizonte, era procurada pelas estudantes, que almejavam o sucesso nas provas. Com generosidade, Irmã Benigna sorria e lhes dizia: “É preciso confiar em Deus e estudar” e segurando as mãos das alunas rezava a Salve Rainha com profunda devoção. Os resultados eram alcançados e a procura das alunas era crescente. 

Diante da fragilidade física, trabalhou intensamente para a construção da capela para os idosos do Lar Augusto e Silva, Lavras-MG, inaugurada em 1980. Com dificuldades, reformou a creche que assistia as crianças carentes e, em 1981, inaugurou a gruta dedicada a Nossa Senhora de Lourdes, que sempre sonhou. 

Ciente de sua saúde debilitada, amigos e devotos, criaram grupos de orações e auxiliavam em suas obras de solidariedade. A fama de santidade perpassava pela boca do povo e os depoimentos das graças alcançadas chegavam a cada momento. 

Aos 16 de outubro de 1981, na cidade de Belo Horizonte – MG, Irmã Benigna recebeu sua transferência para a Casa do Pai, onde se encontra auxiliando do auto os inúmeros devotos que até os dias de hoje recorrem à sua intercessão. Mais que saudades, deixou-nos o legado de irradiar a alegria de Cristo por meio de atitudes solidárias, gestos misericordiosos e olhares capazes de restaurar a esperança. Ensinou-nos a garimpar o tesouro mais precioso que habita em cada coração humano, o próprio Deus. 

Em 2009, AMAIBEN (Associação dos Amigos de Irmã Benigna) e a CIANSP (Congregação das Irmãs Auxiliares de Nossa Senhora da Piedade) se uniram para atender ao clamor do povo que deseja a honra dos altares para a Irmã Benigna, porque para eles, uma vida doada ao serviço do próximo, em constante saída de si mesmo, que enfrentou as tribulações com resignação e alegria é um sinal de santidade. 

O sonhado Processo de Beatificação da Serva de Deus Irmã Benigna Victima de Jesus, foi aberto no dia 15 de outubro de 2011, na capital mineira, sob o zeloso olhar do Excelentíssimo Senhor Arcebispo Metropolitano de Belo Horizonte – MG, Dom Walmor Oliveira de Azevedo. 

Percebemos, em cada etapa do processo, que a Santidade está perto de nós. É o generoso convite de Cristo que nos interpela: “Sede santos como vosso Pai Celeste é Santo” (Mt 5,48). Irmã Benigna compreendeu a urgência desse apelo e descobriu a simplicidade que envolve esse compromisso. Ela dedicou, sem reservas, toda a sua história para servir a Deus com imenso amor e contou incessantemente com a carinhosa intervenção de Maria, a Senhora da Piedade. 

Irmã Jéssica Luana de Souza, ansp

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