Fundador

Na vivência do amor Misericordioso de Deus e ao contemplar as dores da humanidade escravizada, o Servo de Deus congregou Mulheres Consagradas para defender e gerar a Vida.

Domingos Evangelista Pinheiro nasceu na cidade mineira de Caeté em 21 de julho de 1843. Ainda pequeno, no regaço acolhedor de uma família cristã, se preparou para receber a 1ª comunhão das mãos do Padre José Gonçalves lá na igrejinha barroca no alto da Serra da Piedade. Nossa Senhora com o filho morto nos braços marcou a vida dessa criança. Quando alcançou os 5 anos de idade, já fazia companhia ao Padre José Gonçalves nas visitas ao trabalho escravo, escutando os clamores dos negros nas senzalas escuras e sujas. Quando estava maior, o padre deixava que estivesse presente nas reuniões com os senhores, nas quais, corajosamente, mostrava as injustiças cometidas por eles que se diziam cristãos. Nessas reuniões o padre José conseguiu a folga dos escravos aos domingos. E o coração de Domingos foi crescendo numa profunda compaixão para com os injustiçados.

Mesmo sendo criança, Domingos sofria ao ler as vidas nas ruas. Ele via, ouvia e sentia o olhar das mães a chorarem por seus filhos; acompanhava as vidas vendidas e as histórias roubadas; lamentava no peito os sangues pisados e os pensamentos torturados. E para aquietar sua cabeça, retirava-se para a beira do rio, passava horas sentado nas pedras a contemplar mulheres negras, piedosas que enquanto lavavam roupas cantavam o cântico de Nossa Senhora: ” No céu, quando, ó Rainha, poderei, poderei te amar? No céu, quando, ó Maria, me darás, me darás um lugar! A terra é um exílio de dor e provação, mas encontro abrigo no teu coração.”

Sua ordenação ficou marcada para 17 de janeiro de 1869. Tinha, à época, 25 anos. Dom Pedro Maria de Lacerda foi o ordenante, confirmando o que dissera anos antes: “Serás Padre quando eu for Bispo”. Nesse tempo, ele era bispo do Rio de Janeiro e viera a Mariana para realizar a ordenação do seminarista de Domingos.

Escreveu a Dom Viçoso que desejava criar uma irmandade leiga que zelasse sobre o patrimônio da Serra da Piedade, casa da Padroeira do Estado de Minas Gerais e ajudasse a revitalizar o antigo fervor do povo. Essa irmandade leiga se comprometeria a conseguir manutenção de meninas, filhas de mulheres em situação de escravidão, no asilo que pretendia fundar na fazenda São Luís.

Monsenhor fundou o Asilo em meio às dificuldades, e nos momentos de incerteza, muitos o desanimavam para desistir dessa ideia. Numa época em que o país estava passando por sérias transformações. Na manifestação cívica pela visita de Dom Pedro, o Asilo não foi colocado como instituição de valor, mas Padre Domingos não se deixou derrotar. Conduziu até o Imperador a sua comitiva, meninas órfãs, filhas de escravas que entregaram a Dom Pedro, flores cultivadas no Asilo São Luís. 

Aos poucos, entre as meninas formandas e órfãs acolhidas por Monsenhor Domingos, existem algumas que já podem contribuir ensinando as primeiras letras, músicas (piano e violino) e canto. Ele logo convida para uma entrevista, daí surge a formação de professoras.

Padre Domingos semanalmente se reunia com aquelas formandas que demonstraram desejo de se transformar em religiosas. Os padres amigos Antônio e Carlos Ferreira preparavam as jovens com frequência em grupo ou individualmente. Monsenhor Júlio Engrácia foi grande auxiliar na formação das jovens aspirantes, fazendo-lhes palestras mostrando-lhes que a mulher que abraçava o estado religioso não era superior as outras, apenas por se vestir de modo diferente, mas se o seu jeito de ser fosse parecido com o de Jesus, tendo imensa ternura com os mais desprezados da sociedade, aí sim, ela se tornaria uma luz de esplendor para o mundo.

Ao iniciar o noviciado das irmãs, no dia 28 de agosto de 1892, Monsenhor Domingos não se descuidou de sua formação: duas vezes por semana fazia conferências para elas. Exortava a meditação da Palavra de Deus como resoluções práticas para a vivência do dia a dia.

Sendo ele Presidente da Câmara de Caeté, administrava conscientemente, procurando cumprir, com exatidão, os deveres que agora lhe pesaram os ombros. Não pôde esquivar-se aos desejos de seus conterrâneos e do desejo de também querer ver seu povo desfrutar, por meio de uma boa administração, dos vários melhoramentos que estavam ocorrendo na vida do país. Instalou telefones, água e luz elétrica. Para sustento do Asilo trabalhava com as irmãs e órfãs a fibra de bananeira para fazer bordados em diversos tecidos. Em 1911 levou as peças em exposição a Turim, Milão e Roma.

Em 06 de março de 1911, no jornal Minas Gerais saiu reportagem sobre Monsenhor Domingos: “É um sacerdote de grandes virtudes: além de educar inúmeras meninas, filhas da mulher em situação de escravidão e também jovens filhas de fazendeiros, sem condições de receberem uma educação, se dedica a criar indústrias novas como a da fibra de bananeira na qual se destaca a beleza do desenho, produzindo, admiráveis trabalhos, como belíssimas cestas de flores e finíssimas rendas”. Mesmo diante de tantos elogios se conservava humilde como instrumento mudo nas mãos de Deus.

No final da vida tinha grande paz ao olhar para a Serra da Piedade. Continuou animando a uns e consolando a outros. Não deixou de ensinar as Irmãs sobre a convivência e o cuidado com a educação das crianças. Ao falecer, apresentava como foi sua vida, um semblante tranquilo, jovial.